sábado, 1 de fevereiro de 2014

The Austen Power!


Bem vindos ao excitante mundo de Jane Austen!



No final do ano passado, foi lançado um filme sobre aficionadas que pagariam altas quantias para viver uma experiência à lá Jane Austen, como se estivesse em um de seus livros, vivendo como num de seus romances. Esse filme é Austenland, estrelado por Keri Russel, que enfatiza a paixão que Austen ainda desperta com suas historias magistralmente escritas há só 2 seculos.

No filme, Jane Heyes, ou Miss Erstwhile (Keri Russel), gasta todas as suas economias para ir para Austenland, uma espécie de parque turístico ao estilo de Pemberley que oferece uma “Experiência Austen”, pra passar uma semana nos anos 1800s, revivendo situações que as heroínas dos livros viveram auxiliadas por atores que representam os estereótipos dos personagens masculinos, objetos de desejo das fãs que sonham em encontrar um Mr. Darcy da vida. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Shannon Hale, e eu realmente adorei o filme e recomendo! Então, vamos brincar de Austenland e reviver um pouquinho do tempo de Jane Austen?


É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen é uma das principais escritoras da literatura mundial. Ela é tão bem sucedida que recebeu até mesmo uma honrosa legião de fãs que se autodenominam como ‘Jainetes’. E por incrível que pareça, o termo ‘Jainete’ não é nada atual, ele já existe desde 1870, quando foi lançado o livro “As Memórias de Jane Austen”, ou seja, muito antes dos atuais ships de livros, filmes e séries de TV que vemos pipocando nas redes sociais.

Para entender os figurinos de cada filme, é preciso entender o que acontecia em cada momento em que este se passa. E para quem gosta de moda do período regencial, os filmes baseados em suas obras são um prato cheio!

Nos filmes de Austen, veremos apenas a moda inglesa, já que os ingleses (como boa parte da Europa da época) consideravam a moda francesa subversiva com suas Mervelleuses e Incroyables. Claro que é importante frisar que a anglomania já andava em alta desde o fim do período rococó, já que a Inglaterra era vista como uma terra de liberdade, e quando estourou a Revolução Francesa e durante o Terror, usar a pratica e descompromissada moda inglesa poderia literalmente salvar vidas. Mas mesmo depois que o Terror acabou, essa tendência continuou na moda, e todo mundo queria estar “in”, usando os lindos trajes campestres à moda inglesa. Os trajes masculinos seguiram a tendência e se tornaram mais austeros em relação ao do período anterior, e os femininos ficaram tão leves e simples que a mulherada parecia gostar de sair na rua parecendo estar mesmo só de camisola!

O Diretório (1795-1799)

Jane começou a escrever suas historias ainda no período do Diretório, então vários de seus filmes são ambientados nessa época, como Razão e Sensibilidade (1995), Orgulho e Preconceito (2005) e Mansfield Park (2007), mostrando o contraste dos trajes da tradicional nobreza, ainda com forte influencia rococó, para a moderna aristocracia que adotava as novas tendências com trajes que mostravam que o antigo regime estava mesmo no passado. O que podemos notar em todos os filmes de Jane Austen? O cuidado com as roupas, que distinguem as classes sociais através não só dos modelos, mas também dos tecidos e acessórios de cada personagem, muitos bonnets (aquele chapeuzinho boneca), a importância dos xales, e bailes, muitos bailes! Aliás, é nesse período em que se começa a usar mais e mais acessórios como uma forma de distinção e individualidade, como chapéus, turbantes, luvas, joias, retículas (pequenas bolsas), xales, lenços, sombrinhas, leques... E os filmes de Jane estão repletos de todos esses elementos! Mas ‘bora falar dos filmes?

Em Orgulho e Preconceito vemos uma Lady Catherine de Bourgh usando trajes e penteados do fim do rococó, como se simplesmente não aceitasse as mudanças que estavam rolando pelo mundo, realmente, os mais velhos ainda usaram os trajes do antigo regime, adaptados à nova estética, ou seja, com menos volume e menos detalhes, e ninguém melhor que Lady Catherine para representar esse lado “resistente” da moda do período.

da esquerda para a direita: a tradicional Lady Catherine de Bourgh
a fashion Caroline Bingley e a modesta Lizzy Bennet em Orgulho e Preconceito (2005)

Enquanto Lady Catherine não se rende às novas tendências, Caroline Bingley abusa dos elegantíssimos e cosmopolitas trajes em estilo grego (o ultimo grito da moda!), e a modesta, mas não menos elegante, Elizabeth Bennet, usa a moda campestre, ainda uma intermediaria entre a moda rococó e a império.

Em Mansfield Park vemos o periodo de transição acontecendo de maneira bem nítida. Temos as primas ricas usando os vestidos do diretorio, mas ainda com forte influencia rococó, a prima pobre Fanny Price usando vestidos campestres fora de moda, enquanto a elegante Mary Crawford seduz a todos com seus trajes da ultima moda,  inclusive o jovem Edmund, o grande amor de Fanny.

da esquerda para a direita: as primas ricas, Fanny Price
e a fashionista Mary Crawford em Mansfield Park (2007)

Um dos meus trajes favoritos do período aparece bastante nos filmes de Jane Austen, e um ótimo exemplo dele pode ser visto em Razão e Sensibilidade (1995), é o open robe, ou robe aberto. Um vestido aberto na frente que se usava sobre um outro vestido, que era muito usado para passeios durante o dia, especialmente picnics.

Marianne Dashwood (Kate Winslet) usando um robe aberto
em Razão e Sensibilidade (1995)

Outro filme interessante é Amor e Inocência (Becoming Jane) que conta a historia da juventude de Jane Austen, seu primeiro amor, e de onde ela tirou a inspiração para escrever Orgulho e Preconceito. As roupas do período diretório são muito bem reproduzidas nesse filme, e o contraste entre o traje inglês (da própria Jane Austen) e da sua prima e cunhada, que é uma ex duquesa francesa, é bem nítido.

O Império (1800-1810)

Já no período império, temos Emma (1995) usando vestidos em que a cintura é muito alta, mas não tão marcada quanto as dos vestidos da década anterior, e a silhueta é bem reta, como as colunas greco-romanas e egípcias (porque sim, o Egito também estava bastante na moda na época!). Em Emma (com a Gwyneth Paltrow, já que eu ainda não vi a versão de 1996 com a Kate Beckinsale), tem uma cena que eu gosto bastante em que a protagonista pinta sua amiga Harriet em estilo neoclassico, usando um traje em grego extremamente caricato e segurando um cântaro, que era o estilo artístico da época! 

Há também o dandy Mr. Frank Churchill que foi criado na cidade grande e usa a ultima moda entre os jovens cavalheiros à lá Beau Brummell, o metrossexual da época.

Nessa década, os cabelos ficaram mais curtos, e um emaranhado de cachos eram puxados para trás e presos num coque, e isso é muito visto em Gwyneth Paltrow no filme.

Harriet (Toni Collette) sendo pintada como uma
grega antiga em Emma (1996)

E ainda deste período, temos Death Comes to Pemberley, minissérie em 3 capitulos da BBC, que é uma adaptação do romance policial de P.D. James, que seria uma continuação de Orgulho e Preconceito, mostrando a historia dos personagens 6 anos após o fim do livro de Jane. Eu assisti Death Comes to Pemberley, e apesar de ter gostado (mas não amado), tenho certeza absoluta que o autor não conseguiu deixar sua historia com a cara de Austen! Mas nesta versão podemos ver Lydia Wickham usando um pelissé (um sobretudo) de inspiração militar que foi uma verdadeira febre durante o reinado de Napoleão. 

A comparação do traje militar inglês e sua versão feminina no pelissé de Lydia Wickham
em Death Comes to Pemberley (2013)
 Aliás, é bom comentar também, que dá pra sentir as mudanças da moda de uma década pra outra comparando os trajes da trama principal com os flashbacks em Death Comes to Pemberley. As moças de 1790s usam cabelos mais cheios, a cintura não é tão alta e a silhueta não é tão justa e retilínea quanto na década de 1800s. Essa foi uma das coisas que mais gostei nesse filme, esse cuidado com o figurino de não colocar tudo como se acontecesse no mesmo período, sem diferenças de estilo entre uma estética e outra.

Elizabeth Bennet em 1797 comparada à de 1803, e Georgiana Darcy
em Death Comes do Pemberley (2013)

A Regencia (1811-1825)

O canal inglês BBC é especialista em reproduções de grandes clássicos da literatura, e Jane Austen já foi bastante revisitada por eles. Como os livros de Austen só passaram a ser editados após 1811, praticamente todas as séries da BBC inspiradas nas obras da autora, se passam nos anos de lançamento de cada livro. Então, analisar o período da Regência (especificamente entre 1811 e 1817, quando Jane faleceu) através das adaptações de suas obras, fica muito mais fácil!

Entre todas as séries inspiradas em Austen da BBC, a mais aclamada é Orgulho e Preconceito, de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle como o orgulhoso Fitzwilliam Darcy e preconceituosa Elizabeth Bennet. Firth, inclusive, é considerado o melhor Mr. Darcy já feito, (e olha que esse personagem já foi vivido por muitos atores muito bons!) e continua arrancando suspiros das fãs mais ardentes de Miss Austen.

Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, um dos casais mais famosos
da historia da literatura, em Orgulho e Preconceito (1995)
Mas voltando à moda da Regência, vemos muitos spencers jackets no guarda roupas femininos. Não que o Spencer tenha surgido durante essa época, porque já se usava desde o período rococó, mas durante a regência ele se tornou um verdadeiro hit! As saias dos vestidos ficaram um pouco mais largas em relação à silhueta mais reta da década anterior, e ganharam muitos detalhes nos barrados, que podiam ser fitas, bordados, babadinhos e afins. As mangas também passam a ser mais trabalhadas, inspiradas nas do renascimento, com detalhes vazados e aplicações de tecidos em outras cores, babadinhos, rendinhas e lacinhos. E os penteados, sempre divididos ao meio, ganharam cachinhos maiores e mais volumosos caídos nas laterais do rosto, e esses cachos seriam parte fundamental dos penteados nos próximos 20 anos.

Alguns dos vários modelos de spencer jacket usados
em Orgulho e Preconceito (1995)

Os vestidos começaram a sair um pouco dos tons pasteis das décadas anteriores e a ganhar cores mais vibrantes, inclusive nas estampas, e isso pode ser visto na mini de 2009, também da BBC, Emma, com Romola Garai e Johnny Lee Miller nos papeis de Emma Woodhouse e Mr. Knightley. Um detalhe interessante é um vestido azul com frisos dourados que Emma usa que é uma reprodução do vestido da princesa Charlotte de Gales, herdeira do trono da Inglaterra, pintado em 1815. E um outro amarelo estampado com flores, que é claramente inspirado numa das obras de Edmund Blair Leighton.

Alguns dos muitos vestidos coloridos de Emma (Romola Garai) em Emma (2009)


O Branquinho Basico

Outra febre napoleônica que podemos ver em todos os filmes inspirados em Austen é o vestido branco, que era o pretinho básico da época. Desde a época de Maria Antonieta (1780s) que os vestidos brancos eram a ultima moda, e assim permaneceu até meados dos anos 1820. Mas você sabe por que o branco esteve tão em alta nesse período? Existiam mil motivos para que se usasse branco. Branco era a cor da virtude e da simplicidade, além de ser uma cor que caía bem tanto para o dia quanto para a noite. Branco também era a cor que todos achavam que se usava na Grécia e na Roma antiga, pois todas as estátuas encontradas eram de mármore branco, seguindo assim o ideal de beleza neoclássica. E branco também era uma cor que sujava fácil, era difícil de manter sempre limpo e com cara de novo, por isso, era símbolo de status. Claro que o fato de Napoleão Bonaparte ter instituído o traje de gala branco para seus regimentos ajudou bastante também para que a força do “branquinho básico” não saísse de moda tão cedo.

O vestido branco é um elemento importantíssimo nos filmes de Austen, usados com muita graça nos bailes. Desde o diretório até a regência ele está sempre lá, usado tanto por mocinhas casadoiras como pelas distintas damas já casadas, entre saltinhos e rodopios, guiadas pelos nobres cavalheiros, também eximiamente trajados, com muita distinção e elegância.

O Baile de Netherfield da versão de 2005 de Orgulho e Preconceito

E o da versão de 1995


E Jane Austen nos dias de hoje?

Darcy & Lizzie do seculo XXI: The Lizzie Bennet Diaries

Jane Austen é tão atual que já teve alguns de seus romances adaptados em versões modernizadas, como em Patricinhas de Beverly Hills, inspirado em Emma, O Diário de Bridget Jones (livros e filmes), inspirado livremente em Orgulho e Preconceito, From Prada to Nada e Scents and Sensibility, inspirados em Razão e Sensibilidade, e as web séries The Lizzie Bennet Diaries e Emma Approved (inspirados respectivamente em Orgulho e Preconceito e Emma), que trazem a historia para os dias de hoje, aproveitando toda a personalidade das personagens principais. Eu inclusive sou apaixonada por The Lizzie Bennet Diaries, e o hipster William Darcy é o meu segundo Darcy favorito, seguindo de perto o de Colin Firth.

Jane Asten é atemporal, estão aí Patricinhas de Beverly Hills, De Prada para Nada
e O Diario de Bridget Jones pra provar ;) 

Para encerrar, vou indicar também o filme também produzido pela BBC, Miss Austen Regrets, que conta a sua vida entre 1814, quando ela está para lançar Emma, e 1817, quando ela morre. Para quem quer conhecer um pouco mais sobre a Jane, assistir Amor e Inocência e Miss Austen Regrets é uma ótima pedida!

Dois filmes sobre a vida de Jane: o primeiro, Amor e Inocência, sobre sua juventude,
e o ultimo, Miss Austen Regrets, sobre o fim de sua vida.


No próximo artigo, vou falar um pouco sobre os trajes mais importantes do período.