quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

A moda da Renascença Italiana narrada em romances de época!



Eu estou numa fase totalmente renascentista há meses, e tenho lido muitos romances históricos desse período, e uma das coisas que mais tenho amado nesses livros é a riquesa de detalhes da moda da época, algo extremamente importante na cultura italiana no século XV.

A moda através dos afrescos de Ghirlandaio na Capela Tornabuoni em Florença

Arte e moda sempre andaram juntas, e não poderia ser diferente num dos periodos mais fervilhantes da historia da arte, o renascimento florentino, aonde podemos ver os penteados elaborados nos quadros de Botticelli, os lindos trajes femininos e masculinos nos afrescos de Ghirlandaio, e a beleza eternizada da mulher italiana de Leonardo da Vinci. E como os livros que tenho lido são ambientados no luxuoso mundo da Florença do Quattrocento (como é chamado esse periodo pelos críticos de arte), dá pra se sentir um pouco como se eu estivesse vivenciando um pouquinho desse clima fantástico, além de visualizar perfeitamente todo o luxo dos tecidos usados pelas damas da época.

Mas para poder entender bem sobre do que eu vou falar, é sempre bom saber quais eram as peças mais importantes do guarda-roupa de uma dama italiana do seculo XV, certo? Então boralá!



Da esquerda para a direita:
camícia, gamurra
giornea solta
e giornia com cinto
Camícia – Era uma camisola, que se usava por baixo do vestido principal (a gamurra), e que era puxada através de fendas nas mangas para dar aquele aspecto de manga fofa.
Elas podiam ser simples, ou ricamente trabalhadas e bordadas em tecidos nobres.

Gamurra – Era o vestido principal, que tinha o corpete ajustado com cintura bem marcada (normalmente alta) e saia evasée usado sobre a camícia. Poderia ser usado com ou sem a giornea. As mangas podiam ser de outro tecido, eram separadas e cortadas em vários pedaços para que a camicia pudesse ser puxada e dar o aspecto fofinhos das mangas renascentistas.

Giornea – Era uma sobreveste, parecida com uma capa, que se usava por cima da gamurra, que podia ser usada solta ou presa só na frente, assim como toda presa, com um cinto. Era muito comum ser feita em brocado com padrões com os simbolos da familia.

Na cabeça – As moças solteiras usavam os cabelos soltos, caindo sobre os ombros, podendo usar redes, gorros, toucas, balzos (uma espécia de boina fofa) ou véus junto com elaborados penteados. As mulheres casadas usavam os cabelos em penteados igualmente elaborados, mas nunca caindo sobre os ombros.

Da esquerda para a direita: touca, gorro, balzo, rede e véu

Bem, agora que você já está familiarizado com as peças mais importantes do guarda roupa da dama italiana do Quattrocento, vamos aos livros:

Senhora da Vinci – Robin Maxwell


Em “Senhora da Vinci”, acompanhamos a história de Caterina, mãe de Leonardo da Vinci, que se veste de homem para sobreviver sozinha em Florença podendo assim acompanhar a vida do filho, o prodigioso pupilo de Andrea Verocchio, estando assim, diretamente envolvida com os mais ilustres nomes de Florença e da Academia Platônica, como Lorenzo de Medici, Picco della Mirandola, Angelo Poliziano, Antonio dell Pollaioulo e Marsílio Ficino.


Ao desenrolar da trama, Robin Maxwell faz belas narrativas de trajes de grandes nomes femininos do renascimento, como Lucrezia Donati, Clarice Orsini, Beatrice d’Este e Bianca Maria Sforza (as duas ultimas da corte milanesa, não florentina). Mas é um verdadeiro deleite ver a descrição do traje do quadro mais famoso do mundo: Mona Lisa!


“Era mais que estranho caminhar pelos corredores do palácio ducal usando um vestido de um verde oliva intenso, com o corpete de decote baixo e arredondado, finamente plissado e enfeitado com fita dourada. Suas mangas divididas eram macias e da cor da fulva de uma corça, e eu encontrara uma capa de um verde oliva mais claro que joguei por sobre os ombros.”


Quer descrição mais perfeita para o vestido da Mona Lisa? * . *



Eu, Mona Lisa – Jeanne Kalogridis




Ainda no clima “Da Vinciano”, temos “Eu, Mona Lisa”, que conta a história da jovem Lisa de Gherardini durante a conflituosa década de 1490 em Florença, e como a história politica da cidade influenciou diretamente seu destino.


No livro, Lisa é a filha de um Antônio de Gherardini devoto de Savonarola, que vê com maus olhos todo o luxo e ostentação da sociedade florentina e que condena inclusive as artes profanas do período. Mas a mãe de Lisa era proxima da familia Medici na sua juventude, e pede ao marido que use os favores de Lorenzo de Medici para escolher o marido de Lisa quando chegasse o momento. Lisa então entra num mundo de luxo e arte, conhece Botticelli, Michelangelo, e é claro Leonardo da Vinci, por quem se encanta logo de cara. Mas entrega seu coração ao jovem filho de Lorenzo, Giuliano de Medici.


O vestido que ela usa durante a recepção em que conhece todos esses grandes nomes da historia é descrito magistralmente por Jeanne!



“O vestido, habilmente ajustado para insinuar as formas de uma mulher onde não havia nenhuma, era muito mais imponente do que qualquer coisa que eu já usara. As saias cheias, com uma cauda curta, eram feitas de veludo verde-azulado profundo com seu padrão de folhas de videira de cetim. O corpete era do mesmo veludo com inserções de damasco verde-claro. Na cintura alta, havia um cinto de prata delicadamente trabalhado. As mangas eram talhadas e ajustadas feita de um brocado entrelaçado com fios azul-turquesa, verdes e roxos entrelaçados com fios de prata pura. Zalumma puxou minha camícia através dos talhos e deixou-a bufante. De acordo com a moda da época. Eu havia escolhido a seda branca fina, matizada de prata. (...) Eu usava uma touca feita do mesmo brocado, orlada com pérolas miúdas, e por ser solteira, meus cabelos podiam cair livremente pelos ombros.”

Igualmente bem descrito é o vestido que Lisa usa em seu casamento com Francesco del Giocondo:


“Francesco mostrou um desenho do que tinha em mente: um vestido de cintura alta com corpete quadrado. As mangas não tinham a costumeira forma de sino: eram estreitas, bem justas, com ênfase na camícia puxada através de várias fendas e ostentosamente bufante. O decote era bastante baixo, exibindo também grande parte da camícia.(...)

Meu vestido era de um azul vivido e brilhante, com um cinto grosso de brocado da mesma cor (...) Francesco me dera um colar de ouro e safira, e um adorno de cabeça tão caro que só de vê-lo eu ficava nervosa: era uma rede de pequenos diamantes entrelaçados no fio de ouro mais puro. Toda vez que eu virava a cabeça, o sol incindia nos diamantes, e pelo canto dos olhos eu via lampejos de uma luz multicor.”

Quem mais conseguiu visualizar completamente os vestidos usados por Lisa nesse livro levante a mão! o/

Li também um outro livro sobre ela chamado “A Vida Secreta de Mona Lisa” do Pierre la Mure, e fiquei bastante surpresa ao ver que muito do que eu li em “Eu, Mona Lisa” se encaixava completamente na biografia dramatizada dela!

O Nascimento de Vênus – Sarah Dunant


Esse livro não conta a história de Mona Lisa, mas de uma jovem florentina também apaixonada por arte e com uma forte ligação com os Medici: Alessandra Cecchi, a filha de um rico comerciante de tecidos.

A trama gira em torno da relação de Alessandra com um jovem e tímido pintor flamengo, contratado para pintar os afrescos da capela da familia Cecchi, por quem ela, que tem uma veia artística muito forte, se fascina. Ela conhece bastante de arte e cita obras de vários artistas da época, como Ghirlandaio, Botticelli, Fra Felippo Lippi e Michelangelo, além de citar Alberti e Cennini, então, mesmo que não tivesse belíssimas descrições dos trajes, já é um prato cheio para quem gosta de historia da arte!


Sobre os trajes, destaco uma descriçao que considero excelente, a do vestido de casamento da irmãs de Alessandra: Plautilla Cecchi.


“O casamento de Plautilla, quando finalmente aconteceu, foi a confirmação dos tecidos de meu pai e da fortuna da família. (...)
Seu vestido está na ultima moda: decote festonado, mostrando sua carne roliça e o tecido flamengo delicado, e austucioso, de meu pai, que já recebeu inumeras encomendas; suas anáguas macias e cheias como a asa de um anjo, de modo que quando ela passa deslizando, ouve-se o material suspirar pelo chão. Mas é o vestido por cima que emociona pela beleza. É feito da melhor seda amarela, a tonalidade do açafrão mais brilhante cultivado especialmente para a tintura nos campos de San Gimignano, e a saia é bordada, não grosseiramente como as que vemos na igreja, que tentam competir com o pano do altar, mas sutilmente, de modo que as flores e os pássaros parecem se entrelaçar do bordado.”

Tem também um outro livro sobre a renascença italiana que vale a pena citar aqui, mas que vou deixar pro próximo artigo (afinal, esse já está bem comprido, né?), que é “A Dama das Amêndoas” da Marina Fiorato. Só não vou coloca-lo aqui agora por estar me extendendo muito no assunto, e ele não ser das décadas de 1480 e 1490 e não se passar em Florença como os 3 supracitados, mas sim da decada de 1520. E acabei de receber pelo correio meu novo livro sobre o renascimento italiano, mas esse um pouco anterior, se passando na decada de 1450, e se chama “Milagres em Prato”. Entao aguardem que em breve tem mais sobre esse periodo fascinante (e um dos meus favoritos) da história da moda e da arte. ;)


Esses livros são um deleite para não só para quem gosta de história da moda, mas também para  quem é artista e apenas gosta de arte, pois descreve com primor o preparo das tintas e materiais de pintura, todo o processo  de preparo do esboço até a obra final. Super valem à pena!

Fica a dica ;)

domingo, 3 de agosto de 2014

11 fatos sobre mim

[TAG] 11 Fatos sobre Mim



Regras:
Listar os 11 fatos sobre você
Responder as 11 perguntas de quem te indicou a TAG
Fazer 11 perguntas para os indicados
Indicar 11 blogs para responder a TAG

11 Fatos sobre mim:

01 - Eu desenho desde os 3 anos de idade, e sempre tive cadernos confiscados pelos professores por estar desenhando durante as aulas. Eu também fazia verdadeiras obras de arte nas bordas das provas, enquanto pensava nas questões a serem resolvidas ou respondidas :P

02 - Sei dizer o estilo e a época de uma roupa só de olhar pra ela.

03 - Apesar de ser bruxa, acreditar e praticar magia, não vejo muita graça em literatura fantástica, a não ser que se baseie em mitologia e que não seja viajada demais.

04 - Sou uma Crazy Cat Lady! Tenho 11 gatos e, assim como a irmã canina, todos eles tem nomes egípcios! \o/

05 - Apesar de ser formada em moda, nunca liguei pro modo que me visto, sou bem desencanada e uso roupas com até mais de 10 anos de uso! Meu negocio sempre foi criação!!!

06 - Amo contos de fadas! Amo! Amo! Amo!!!

07 - Sou egiptomaniaca! Estudo a historia, a língua, os hieroglifos, a arte... Ha muitos, muitos anos!

08 - Sou sagitariana, tenho ascendente em peixes e lua em aquário. O que faz de mim um ser muito non-sense! :P

09 - Sou viciada em livros! Me sinto órfã quando acabo de ler um livro, e fico de luto por dias quando um personagem que gosto morre ou sofre uma grande desgraça na vida. Eu também releio meus livros favoritos uma vez por ano!

10 - Se eu pudesse, teria uma maquina do tempo e mudaria fatos históricos que não me agradam muito, como diminuir o poder do império romano, por exemplo, rsrs

11 - Acredito em fadas, duendes, gnomos, dragões, elementais, smurfs, sereias... Bem, eu sou bruxa, eu acredito em magia! :)


11 Perguntas:

1 - Se pudesse morar em qualquer lugar do mundo, sendo ele real ou fictício, onde moraria?
Atualmente (acabei de ler essa trilogia), a Floresta de Sevenwaters seria um lugar fantástico pra se viver, junto aos Seres da Floresta, aos Antigos e à Dama da Floresta!

2 - Qual personagem literário mais se parece com você?
Não sei dizer... Tenho um pouco de Lizzy Bennet, um pouco de Julie Jacobs, um pouco de Liadan de Sevenwaters... Sou um verdadeiro caldeirão de heroínas literárias, rsrs

3 - Gostaria de viver um romance com algum personagem literário? Se sim, com quem?
Quem nunca? rsrs
Gostaria de flertar com praticamente todos os pares românticos das minhas heroínas de meus livros favoritos! HAHAHHAHAHA

4 - Quais seus escritores favoritos (nacional e estrangeiro)?
Confesso não ser grande fã de escritores nacionais, apenas porque eles não costumam escrever sobre os temas que gosto. Mas dos estrangeiros eu tenho alguns que sempre fazem meu coração bater mais forte como a Margaret George, o Bernard Cornwell, a Colleen McCulleigh, a Anne Fortier e a Juliet Marillier, além da eterna Jane Austen, claro! :)

5 - Se escrevesse um livro agora, qual seriam os nomes dos seus protagonistas e que gênero seria o livro?
Hum... Difícil escolher de pronto... Mas gosto muito do nome Blanche pra um romance de época!

6 - Qual é seu livro e/ou saga preferido?
Orgulho e Preconceito (Jane Austen), Julieta (Anne Fortier), As Memórias de Cleopatra (Margaret George) e As Crônicas de Arthur ocupam o primeiro lugar do meu pódio!

7 - Qual é seu gênero literário preferido?
Ficção histórica!

8 - Lê quantos livros ao mesmo tempo? Quantos está lendo atualmente? Qual o maior número de livros que já leu ao mesmo tempo?
Dou preferencia pra ler só um mesmo, mas tem épocas que leio até 3 livros ao mesmo tempo

9 - Quantos dias, em média, demora para terminar um livro?
1 semana mais ou menos. Mas tudo vai depender do livro, já li em menos e em mais tempo livros que tinham mais ou menos o mesmo numero de paginas

10 - A melhor e pior coisa de ser blogueiro (a) é...
Ter que atualizar o blog! HAHAHAH
Veja bem, é gostoso atualizar, mas quando se é extremamente perfeccionista como eu, que precisa estar com tudo certinho, isso acaba dificultando muito na hora de escolher temas, imagens ilustrativas e finalizar o texto. Então, é uma maravilha atualizar, mas também uma tortura :P

11 - Em algum momento já pensou em desistir do blog?
Não... Mesmo atualizando o blog de vez em quando, não tiraria ele do ar de jeito nenhum, pois sei que o que eu escrevo pode beneficiar alguém ;)

Minhas perguntas:

1 - Como você descobriu o meu blog? (Sim, sou muito curiosa em relação a isso! rsrs)
2 - Quando começou a se interessar por historia da moda?
3 - Qual o seu ícone da historia da moda favorito? (ex: Maria Antonieta, Ana Bolena, Josephine Bonaparte...)
4 - Se pudesse voltar no tempo, para que época voltaria?
5 - Se pudesse mudar um evento histórico, qual mudaria?
6 - Qual seu filme de época favorito?
7 - Qual seu personagem de filme de época favorito? E se o encontrasse, sobre o que conversariam?
8 - O que faria se encontrasse o vilão do seu livro ou filme de época favorito?
9 - Qual seu estilo literário favorito?
10 - Se pudesse encontrar o seu personagem literário favorito, quem seria ele/a?
11 - O que acha desse tipo de brincadeira? :D

Blogs que indico:

Bem, como sempre, vou quebrar a ultima regra de indicar 11 blogs, porque acho muito mais legal quando as pessoas participam espontaneamente :)
Então, se alguém quiser responder essa TAG, pode ficar a vontade e não se esqueçam de deixar o link do seu blog pra eu conferir suas respostas.

Quem me indicou essa TAG foi o blog http://osliteratoss.blogspot.com.br :)

by mara sop

sábado, 1 de fevereiro de 2014

The Austen Power!


Bem vindos ao excitante mundo de Jane Austen!



No final do ano passado, foi lançado um filme sobre aficionadas que pagariam altas quantias para viver uma experiência à lá Jane Austen, como se estivesse em um de seus livros, vivendo como num de seus romances. Esse filme é Austenland, estrelado por Keri Russel, que enfatiza a paixão que Austen ainda desperta com suas historias magistralmente escritas há só 2 seculos.

No filme, Jane Heyes, ou Miss Erstwhile (Keri Russel), gasta todas as suas economias para ir para Austenland, uma espécie de parque turístico ao estilo de Pemberley que oferece uma “Experiência Austen”, pra passar uma semana nos anos 1800s, revivendo situações que as heroínas dos livros viveram auxiliadas por atores que representam os estereótipos dos personagens masculinos, objetos de desejo das fãs que sonham em encontrar um Mr. Darcy da vida. O filme é baseado no livro de mesmo nome de Shannon Hale, e eu realmente adorei o filme e recomendo! Então, vamos brincar de Austenland e reviver um pouquinho do tempo de Jane Austen?


É uma verdade universalmente conhecida que Jane Austen é uma das principais escritoras da literatura mundial. Ela é tão bem sucedida que recebeu até mesmo uma honrosa legião de fãs que se autodenominam como ‘Jainetes’. E por incrível que pareça, o termo ‘Jainete’ não é nada atual, ele já existe desde 1870, quando foi lançado o livro “As Memórias de Jane Austen”, ou seja, muito antes dos atuais ships de livros, filmes e séries de TV que vemos pipocando nas redes sociais.

Para entender os figurinos de cada filme, é preciso entender o que acontecia em cada momento em que este se passa. E para quem gosta de moda do período regencial, os filmes baseados em suas obras são um prato cheio!

Nos filmes de Austen, veremos apenas a moda inglesa, já que os ingleses (como boa parte da Europa da época) consideravam a moda francesa subversiva com suas Mervelleuses e Incroyables. Claro que é importante frisar que a anglomania já andava em alta desde o fim do período rococó, já que a Inglaterra era vista como uma terra de liberdade, e quando estourou a Revolução Francesa e durante o Terror, usar a pratica e descompromissada moda inglesa poderia literalmente salvar vidas. Mas mesmo depois que o Terror acabou, essa tendência continuou na moda, e todo mundo queria estar “in”, usando os lindos trajes campestres à moda inglesa. Os trajes masculinos seguiram a tendência e se tornaram mais austeros em relação ao do período anterior, e os femininos ficaram tão leves e simples que a mulherada parecia gostar de sair na rua parecendo estar mesmo só de camisola!

O Diretório (1795-1799)

Jane começou a escrever suas historias ainda no período do Diretório, então vários de seus filmes são ambientados nessa época, como Razão e Sensibilidade (1995), Orgulho e Preconceito (2005) e Mansfield Park (2007), mostrando o contraste dos trajes da tradicional nobreza, ainda com forte influencia rococó, para a moderna aristocracia que adotava as novas tendências com trajes que mostravam que o antigo regime estava mesmo no passado. O que podemos notar em todos os filmes de Jane Austen? O cuidado com as roupas, que distinguem as classes sociais através não só dos modelos, mas também dos tecidos e acessórios de cada personagem, muitos bonnets (aquele chapeuzinho boneca), a importância dos xales, e bailes, muitos bailes! Aliás, é nesse período em que se começa a usar mais e mais acessórios como uma forma de distinção e individualidade, como chapéus, turbantes, luvas, joias, retículas (pequenas bolsas), xales, lenços, sombrinhas, leques... E os filmes de Jane estão repletos de todos esses elementos! Mas ‘bora falar dos filmes?

Em Orgulho e Preconceito vemos uma Lady Catherine de Bourgh usando trajes e penteados do fim do rococó, como se simplesmente não aceitasse as mudanças que estavam rolando pelo mundo, realmente, os mais velhos ainda usaram os trajes do antigo regime, adaptados à nova estética, ou seja, com menos volume e menos detalhes, e ninguém melhor que Lady Catherine para representar esse lado “resistente” da moda do período.

da esquerda para a direita: a tradicional Lady Catherine de Bourgh
a fashion Caroline Bingley e a modesta Lizzy Bennet em Orgulho e Preconceito (2005)

Enquanto Lady Catherine não se rende às novas tendências, Caroline Bingley abusa dos elegantíssimos e cosmopolitas trajes em estilo grego (o ultimo grito da moda!), e a modesta, mas não menos elegante, Elizabeth Bennet, usa a moda campestre, ainda uma intermediaria entre a moda rococó e a império.

Em Mansfield Park vemos o periodo de transição acontecendo de maneira bem nítida. Temos as primas ricas usando os vestidos do diretorio, mas ainda com forte influencia rococó, a prima pobre Fanny Price usando vestidos campestres fora de moda, enquanto a elegante Mary Crawford seduz a todos com seus trajes da ultima moda,  inclusive o jovem Edmund, o grande amor de Fanny.

da esquerda para a direita: as primas ricas, Fanny Price
e a fashionista Mary Crawford em Mansfield Park (2007)

Um dos meus trajes favoritos do período aparece bastante nos filmes de Jane Austen, e um ótimo exemplo dele pode ser visto em Razão e Sensibilidade (1995), é o open robe, ou robe aberto. Um vestido aberto na frente que se usava sobre um outro vestido, que era muito usado para passeios durante o dia, especialmente picnics.

Marianne Dashwood (Kate Winslet) usando um robe aberto
em Razão e Sensibilidade (1995)

Outro filme interessante é Amor e Inocência (Becoming Jane) que conta a historia da juventude de Jane Austen, seu primeiro amor, e de onde ela tirou a inspiração para escrever Orgulho e Preconceito. As roupas do período diretório são muito bem reproduzidas nesse filme, e o contraste entre o traje inglês (da própria Jane Austen) e da sua prima e cunhada, que é uma ex duquesa francesa, é bem nítido.

O Império (1800-1810)

Já no período império, temos Emma (1995) usando vestidos em que a cintura é muito alta, mas não tão marcada quanto as dos vestidos da década anterior, e a silhueta é bem reta, como as colunas greco-romanas e egípcias (porque sim, o Egito também estava bastante na moda na época!). Em Emma (com a Gwyneth Paltrow, já que eu ainda não vi a versão de 1996 com a Kate Beckinsale), tem uma cena que eu gosto bastante em que a protagonista pinta sua amiga Harriet em estilo neoclassico, usando um traje em grego extremamente caricato e segurando um cântaro, que era o estilo artístico da época! 

Há também o dandy Mr. Frank Churchill que foi criado na cidade grande e usa a ultima moda entre os jovens cavalheiros à lá Beau Brummell, o metrossexual da época.

Nessa década, os cabelos ficaram mais curtos, e um emaranhado de cachos eram puxados para trás e presos num coque, e isso é muito visto em Gwyneth Paltrow no filme.

Harriet (Toni Collette) sendo pintada como uma
grega antiga em Emma (1996)

E ainda deste período, temos Death Comes to Pemberley, minissérie em 3 capitulos da BBC, que é uma adaptação do romance policial de P.D. James, que seria uma continuação de Orgulho e Preconceito, mostrando a historia dos personagens 6 anos após o fim do livro de Jane. Eu assisti Death Comes to Pemberley, e apesar de ter gostado (mas não amado), tenho certeza absoluta que o autor não conseguiu deixar sua historia com a cara de Austen! Mas nesta versão podemos ver Lydia Wickham usando um pelissé (um sobretudo) de inspiração militar que foi uma verdadeira febre durante o reinado de Napoleão. 

A comparação do traje militar inglês e sua versão feminina no pelissé de Lydia Wickham
em Death Comes to Pemberley (2013)
 Aliás, é bom comentar também, que dá pra sentir as mudanças da moda de uma década pra outra comparando os trajes da trama principal com os flashbacks em Death Comes to Pemberley. As moças de 1790s usam cabelos mais cheios, a cintura não é tão alta e a silhueta não é tão justa e retilínea quanto na década de 1800s. Essa foi uma das coisas que mais gostei nesse filme, esse cuidado com o figurino de não colocar tudo como se acontecesse no mesmo período, sem diferenças de estilo entre uma estética e outra.

Elizabeth Bennet em 1797 comparada à de 1803, e Georgiana Darcy
em Death Comes do Pemberley (2013)

A Regencia (1811-1825)

O canal inglês BBC é especialista em reproduções de grandes clássicos da literatura, e Jane Austen já foi bastante revisitada por eles. Como os livros de Austen só passaram a ser editados após 1811, praticamente todas as séries da BBC inspiradas nas obras da autora, se passam nos anos de lançamento de cada livro. Então, analisar o período da Regência (especificamente entre 1811 e 1817, quando Jane faleceu) através das adaptações de suas obras, fica muito mais fácil!

Entre todas as séries inspiradas em Austen da BBC, a mais aclamada é Orgulho e Preconceito, de 1995, com Colin Firth e Jennifer Ehle como o orgulhoso Fitzwilliam Darcy e preconceituosa Elizabeth Bennet. Firth, inclusive, é considerado o melhor Mr. Darcy já feito, (e olha que esse personagem já foi vivido por muitos atores muito bons!) e continua arrancando suspiros das fãs mais ardentes de Miss Austen.

Elizabeth Bennet e Fitzwilliam Darcy, um dos casais mais famosos
da historia da literatura, em Orgulho e Preconceito (1995)
Mas voltando à moda da Regência, vemos muitos spencers jackets no guarda roupas femininos. Não que o Spencer tenha surgido durante essa época, porque já se usava desde o período rococó, mas durante a regência ele se tornou um verdadeiro hit! As saias dos vestidos ficaram um pouco mais largas em relação à silhueta mais reta da década anterior, e ganharam muitos detalhes nos barrados, que podiam ser fitas, bordados, babadinhos e afins. As mangas também passam a ser mais trabalhadas, inspiradas nas do renascimento, com detalhes vazados e aplicações de tecidos em outras cores, babadinhos, rendinhas e lacinhos. E os penteados, sempre divididos ao meio, ganharam cachinhos maiores e mais volumosos caídos nas laterais do rosto, e esses cachos seriam parte fundamental dos penteados nos próximos 20 anos.

Alguns dos vários modelos de spencer jacket usados
em Orgulho e Preconceito (1995)

Os vestidos começaram a sair um pouco dos tons pasteis das décadas anteriores e a ganhar cores mais vibrantes, inclusive nas estampas, e isso pode ser visto na mini de 2009, também da BBC, Emma, com Romola Garai e Johnny Lee Miller nos papeis de Emma Woodhouse e Mr. Knightley. Um detalhe interessante é um vestido azul com frisos dourados que Emma usa que é uma reprodução do vestido da princesa Charlotte de Gales, herdeira do trono da Inglaterra, pintado em 1815. E um outro amarelo estampado com flores, que é claramente inspirado numa das obras de Edmund Blair Leighton.

Alguns dos muitos vestidos coloridos de Emma (Romola Garai) em Emma (2009)


O Branquinho Basico

Outra febre napoleônica que podemos ver em todos os filmes inspirados em Austen é o vestido branco, que era o pretinho básico da época. Desde a época de Maria Antonieta (1780s) que os vestidos brancos eram a ultima moda, e assim permaneceu até meados dos anos 1820. Mas você sabe por que o branco esteve tão em alta nesse período? Existiam mil motivos para que se usasse branco. Branco era a cor da virtude e da simplicidade, além de ser uma cor que caía bem tanto para o dia quanto para a noite. Branco também era a cor que todos achavam que se usava na Grécia e na Roma antiga, pois todas as estátuas encontradas eram de mármore branco, seguindo assim o ideal de beleza neoclássica. E branco também era uma cor que sujava fácil, era difícil de manter sempre limpo e com cara de novo, por isso, era símbolo de status. Claro que o fato de Napoleão Bonaparte ter instituído o traje de gala branco para seus regimentos ajudou bastante também para que a força do “branquinho básico” não saísse de moda tão cedo.

O vestido branco é um elemento importantíssimo nos filmes de Austen, usados com muita graça nos bailes. Desde o diretório até a regência ele está sempre lá, usado tanto por mocinhas casadoiras como pelas distintas damas já casadas, entre saltinhos e rodopios, guiadas pelos nobres cavalheiros, também eximiamente trajados, com muita distinção e elegância.

O Baile de Netherfield da versão de 2005 de Orgulho e Preconceito

E o da versão de 1995


E Jane Austen nos dias de hoje?

Darcy & Lizzie do seculo XXI: The Lizzie Bennet Diaries

Jane Austen é tão atual que já teve alguns de seus romances adaptados em versões modernizadas, como em Patricinhas de Beverly Hills, inspirado em Emma, O Diário de Bridget Jones (livros e filmes), inspirado livremente em Orgulho e Preconceito, From Prada to Nada e Scents and Sensibility, inspirados em Razão e Sensibilidade, e as web séries The Lizzie Bennet Diaries e Emma Approved (inspirados respectivamente em Orgulho e Preconceito e Emma), que trazem a historia para os dias de hoje, aproveitando toda a personalidade das personagens principais. Eu inclusive sou apaixonada por The Lizzie Bennet Diaries, e o hipster William Darcy é o meu segundo Darcy favorito, seguindo de perto o de Colin Firth.

Jane Asten é atemporal, estão aí Patricinhas de Beverly Hills, De Prada para Nada
e O Diario de Bridget Jones pra provar ;) 

Para encerrar, vou indicar também o filme também produzido pela BBC, Miss Austen Regrets, que conta a sua vida entre 1814, quando ela está para lançar Emma, e 1817, quando ela morre. Para quem quer conhecer um pouco mais sobre a Jane, assistir Amor e Inocência e Miss Austen Regrets é uma ótima pedida!

Dois filmes sobre a vida de Jane: o primeiro, Amor e Inocência, sobre sua juventude,
e o ultimo, Miss Austen Regrets, sobre o fim de sua vida.


No próximo artigo, vou falar um pouco sobre os trajes mais importantes do período.